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Em meio ao caos, a família imperial brasileira sonha em voltar a reinar


Dom Fernando de Orleans e Bragança (C), Dona Maria da Graça de Orleans e Bragança (3D) e Dom Bertrand de Orleans e Bragança (2D), no Rio de Janeiro, em 3 de junho de 2018

Muitos poderiam encarar como uma brincadeira, mas Dom Bertrand de Orleans e Bragança é um homem sério. Com 77 anos, o príncipe imperial do Brasil acredita que o caos vivido pelo país só tem uma solução: a volta de sua família ao poder.

“Se a monarquia voltasse, seria um alívio. Os brasileiros celebrariam com uma grande festa nacional porque estão fartos da República”, assegura, com a voz pausada, o tataraneto de Dom Pedro II, o último imperador do Brasil.

O Brasil realmente atravessa tempos difíceis, com greves e uma desconfiança generalizada da população em relação aos políticos envolvidos em megaescândalos de corrupção, e uma volta ao passado imperial não soa como algo tão descabido para algumas pessoas.

Apesar de o Império brasileiro ter terminado oficialmente em 1889, com a proclamação da República, os herdeiros da extinta Coroa insistiram em reclamar seu papel durante o encontro monárquico anual realizado no Rio de Janeiro neste fim de semana.

A maioria dos brasileiros pouco conhece sua existência, mas a família imperial tem um público fiel.

E este ano dezenas de pessoas de todas as partes do país compareceram ao evento.

Usando suas melhores roupas, jovens e idosos saudavam com reverência a “Sua Alteza” antes de entrar para assistir a missa comemorativa na antiga capela imperial, no alto do bairro carioca da Glória.

Quase todos brancos e exibindo um ‘pin’ com a bandeira monárquica, esperavam ansiosos pelo aperto de mão do príncipe – usando um terno clássico e gravata grená, alto, magro – diante da bela igreja de estilo português.

Muitas mulheres e meninas cobriam sua cabeça com véus: as solteiras de cor branca e as casadas de preto. “Ave, Império!”, gritou uma delas, agitando uma grande bandeira monárquica.

“Hoje tem muita gente pedindo, inclusive, a intervenção militar porque o brasileiro não tem a quem recorrer. Quando os políticos deixam de te representar, não há nada que se possa fazer. Eu acho que a família real tem personalidades fantásticas, sem comparação com os políticos”, defende Graciane Pereira, uma anestesista de 37 anos originária de Porto Alegre.

– Tempos de glória –

O tempo pareceu ir para trás durante a “missa imperial” na igreja onde foram batizados Dom Pedro II (1825-1891) e a princesa Isabel (1846-1921).

O padre, com um hábito especial dourado e usando um barrete, estava acompanhado por coroinhas que lançavam incenso. E apesar de conduzir parte da cerimônia de costas e em latim, elogiou em português o “passado glorioso de reis, imperadores e santos” que, a seu ver, encarnam os descendentes imperiais.

Muitos dos presentes também reivindicaram com nostalgia essa “época de ouro” e se mostravam convictos de que países como Noruega, Bélgica, Espanha ou Suécia são muito mais avançados graças a seus reis.

“O Brasil, na realidade, perdeu o norte a partir da queda da monarquia. A partir daí, tudo começou a ir mal”, afirma Uilian Martins, um pedagogo de 33 anos, de Rondônia.

A família imperial é “muito boa, gente séria, honesta. É do que o Brasil está precisando, mas muitos acreditam erroneamente que se a monarquia voltar, é como se voltasse a escravidão”, diz, por sua vez, José Dearimatea, um aposentado 83 anos, elegantemente vestido com um terno escuro.

Quase como se estivesse vendo um filme, Ana Paula Logrado, uma administradora de 41 anos que queria visitar a igreja, parecia estar em choque por causa do evento e apresentou um contraponto para a retórica imperial: “Acho que a corrupção que vivemos começou, na realidade, nessa época”.

– Charme –

Apesar de apenas 10% dos brasileiros se pronunciarem a favor da restauração da monarquia em uma consulta popular realizada em 1993, Dom Bertrand está convencido de que hoje em dia essa opção seria majoritária.

O brasileiro, diz ele, é “indiretamente” monárquico e prova disso são personalidades como ‘O Rei’ Pelé ou as ‘rainhas de bateria’ das escolas de samba.

A proposta que a Casa Imperial do Brasil faz é implantar uma monarquia que dê “estabilidade” e “união” ao país.

“A monarquia tem certo charme que a República não tem”, defende Dom Bertrand, que considera o PT de Lula “uma seita”.

Em questões sociais, se declara contrário ao casamento gay e acredita que o racismo não existe no Brasil.

Mas nem tudo que reluz é ouro, nem mesmo na Casa Imperial: o príncipe vive há anos em São Paulo, principalmente de doações e também ajudado pelo trabalho voluntário de seis pessoas, porque o “laudêmio” foi concedido para outra parte da família, que disputou o trono inexistente há anos.

Na realidade, mesmo que seu sonho se realizasse, não seria Dom Bertrand que reinaria. Teoricamente, deveria ser seu irmão mais velho, Dom Luiz, solteiro e sem filhos como ele.

Mas Dom Luiz, cujos 80 anos foram festejados com um banquete depois da missa em sua ausência, há algum tempo não participa nos atos públicos por motivos de saúde.

Os olhos monárquicos estão voltados para Dom Bertrand. E para o principal interessado, o sonho não parece tão distante.

“Isso é um fruto que está amadurecendo. Ninguém sabe quando se concretizará, mas estou seguro de que verei o regresso da monarquia com meus olhos”, prognostica o príncipe.

Fonte.: AFP

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